Fotografia de Lan Gonzales
Coluna ConvidadaLifestyle & Behavior

Treinar o olhar para além da aparência

O que aparece ganha nossa atenção; aquilo que permanece fora do quadro pode simplesmente desaparecer da nossa percepção.

LAN GONZALES

Outubro de 2026

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Um ensaio exclusivo assinado por Lan Gonzales. A autora explora como o enquadramento — seja nas telas de cinema, no branding de moda ou na vida quotidiana — molda não apenas o que vemos, mas, de forma crucial, o que nos é ocultado na cadeia produtiva.

Toda vez que uma câmera enquadra uma cena, alguma coisa entra em campo, e alguma coisa fica de fora. Não é apenas uma questão técnica. Enquadrar é escolher. É determinar um ponto de vista, estabelecer uma distância, conduzir o olhar. O que aparece ganha nossa atenção; aquilo que permanece fora do quadro pode simplesmente desaparecer da nossa percepção.

O cinema me ensinou a observar essa relação entre aquilo que vemos e aquilo que não vemos. Um personagem nunca é apenas um personagem. O cenário participa da narrativa. A luz altera a percepção. O silêncio pode dizer tanto quanto um diálogo. Um objeto aparentemente secundário pode adquirir importância dependendo do lugar que ocupa dentro da cena.

Talvez nossa relação com a imagem, na vida cotidiana, não seja tão diferente. Estamos constantemente olhando. Para pessoas, roupas, vitrines, marcas, produtos, campanhas, telas, fotografias, ambientes. Somos atravessados por imagens o tempo inteiro e, muitas vezes, construímos percepções antes mesmo de termos consciência de que estamos fazendo isso. Mas o que, exatamente, estamos vendo? E, principalmente: o que estamos deixando de ver?

A aparência é apenas o começo

Quando falamos em imagem, é comum reduzi-la à aparência. A roupa que alguém veste. A cor que escolheu. O cabelo. O corpo. A maneira como se apresenta. Esses elementos importam, mas não existem isoladamente. A imagem também se constrói na maneira como alguém se movimenta, fala, ocupa um espaço, estabelece relações e responde ao contexto em que está inserido. Ela é atravessada por comunicação e comportamento, por repertório e cultura, por história e circunstância.

Por isso, gosto de pensar a imagem menos como uma superfície e mais como uma construção de percepção. Nós não percebemos apenas aquilo que está diante dos nossos olhos. Interpretamos sinais. E essa interpretação não pertence exclusivamente a quem emite a imagem. Ela também se constrói naquele que observa. É por isso que duas pessoas podem olhar para a mesma coisa e construir percepções diferentes.

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Treinar o olhar, portanto, não significa simplesmente aprender a enxergar mais. Significa aprender a perceber melhor.

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O que existe dentro do enquadramento?

No cinema, o enquadramento estabelece um campo de visão. Na vida, fazemos escolhas semelhantes, ainda que não tenhamos uma câmera nas mãos. Quando olhamos para uma pessoa, podemos perceber sua roupa antes de perceber seu comportamento. Podemos identificar sua aparência antes de conhecer sua história. Podemos associá-la a determinadas referências antes mesmo de ouvir sua voz.

Quando encontramos uma marca, acontece algo parecido. Vemos seu logotipo, sua identidade visual, sua campanha, seus produtos, suas lojas. Mas uma marca também é percebida por aquilo que faz, pela maneira como se relaciona, pelas pessoas que participam de sua construção e pela coerência, ou pelas contradições, entre aquilo que comunica e aquilo que pratica.

A imagem de uma marca não está apenas naquilo que ela diz sobre si. Ela também está naquilo que consegue fazer os outros perceberem. Talvez por isso imagem, comunicação e comportamento sejam dimensões tão inseparáveis. Uma empresa comunica quando fala. Mas também comunica quando escolhe. Quando produz. Quando contrata. Quando se relaciona. Quando decide o que mostrar. E, principalmente, quando decide, consciente ou inconscientemente, o que permanece fora do enquadramento.

Da pessoa à marca. Da marca ao produto. A moda torna essa relação ainda mais evidente. Poucos setores trabalham de maneira tão intensa com a construção de imagens. A roupa participa da forma como nos apresentamos, da maneira como somos percebidos e também da maneira como percebemos a nós mesmos.

Mas existe uma outra camada. Quando olhamos para uma peça de roupa, normalmente vemos aquilo que chegou ao nosso campo de visão: sua forma, sua cor, seu tecido, seu acabamento, sua marca, seu preço. A peça parece completa. Mas ela não é. Antes de chegar ao corpo, há matéria, conhecimento, trabalho, decisões, processos, deslocamentos e pessoas. Existe uma história que não cabe necessariamente na etiqueta. E talvez seja justamente aqui que o exercício de ampliar o olhar se torne mais interessante.

Reflexão

Porque, se aprendemos a olhar para uma imagem procurando aquilo que está além da aparência, podemos começar a olhar para um produto procurando aquilo que está além de sua superfície. Quem está dentro da história dessa peça? Quem participou de sua construção? Que conhecimentos foram necessários? Que relações humanas tornaram possível aquilo que finalmente chegou às nossas mãos?

O fora de campo

No cinema, existe uma expressão que sempre me interessou: o fora de campo. É aquilo que não aparece na imagem, mas que pode continuar existindo dentro da narrativa. Um personagem olha para alguma coisa que não vemos. Um som vem de algum lugar que permanece fora da tela. Uma porta se fecha e imaginamos o que aconteceu do outro lado. O que está fora do enquadramento não deixou de existir. Apenas não está sendo mostrado.

Talvez seja uma boa metáfora para pensarmos a cadeia produtiva. Durante muito tempo, a experiência de consumo nos apresentou principalmente o resultado. Vemos a roupa. Vemos a campanha. Vemos a loja. Vemos o produto pronto. Mas quanto mais sofisticado se torna nosso olhar, mais começamos a perguntar sobre aquilo que não está imediatamente visível.

E essa mudança de perspectiva é importante porque invisibilidade não significa ausência. Uma pessoa pode estar ausente da imagem final e, ainda assim, ser essencial para que aquela imagem exista. Uma etapa pode desaparecer da narrativa de consumo e continuar sendo fundamental para a existência do produto. Um conhecimento pode não aparecer na embalagem e permanecer incorporado em cada detalhe daquilo que foi produzido. O que não vemos também participa daquilo que vemos.

Ampliar o campo de visão

Talvez seja esse um dos grandes desafios do nosso tempo: aprendemos a olhar cada vez mais rápido, mas nem sempre aprendemos a olhar mais profundamente. Somos estimulados a reconhecer, classificar, escolher e consumir imagens em velocidade. Bonito, feio. Novo, antigo. Desejável, indesejável. Sustentável, insustentável. Responsável, irresponsável.

Mas entre uma categoria e outra existe uma quantidade enorme de nuances. Existe contexto. Existe contradição. Existe história. Existe gente.

Talvez ampliar o olhar seja justamente recuperar a capacidade de fazer perguntas antes de concluir. Não apenas: 'Eu gosto?' Mas: 'O que estou vendo?' 'O que não estou vendo?' 'Quem está por trás disso?' 'Que relações tornaram isso possível?' Essas perguntas deslocam o olhar da aparência para a compreensão. E talvez também nos ajudem a construir relações mais conscientes com aquilo que consumimos, comunicamos e produzimos.

Quando o produto ganha uma dimensão humana

É nesse espaço entre aquilo que aparece e aquilo que permanece oculto que a ideia de rastreabilidade humana ganha uma dimensão especialmente interessante. Rastrear não é apenas acompanhar o caminho de um produto. É também reconhecer as pessoas, os processos e as relações que fazem parte desse caminho. É ampliar o campo de visão. É trazer para dentro da narrativa aquilo que durante muito tempo permaneceu no fora de campo.

Na moda, essa mudança pode ser particularmente significativa. Se a roupa é linguagem, então a cadeia que a produz também participa dessa linguagem. Se uma marca constrói uma imagem, as pessoas e os processos que tornam essa imagem possível também fazem parte dela. E se uma mercadoria chega até nós carregada de matéria, trabalho e conhecimento, talvez seja hora de aprendermos a enxergar essas dimensões com a mesma atenção que dedicamos à sua aparência.

Não se trata de abandonar a estética. Nem de diminuir o desejo. Nem de transformar toda experiência de consumo em uma aula sobre cadeia produtiva. Trata-se de ampliar o enquadramento. De reconhecer que uma coisa pode continuar sendo bela e, ao mesmo tempo, possuir uma história que merece ser conhecida. Que uma marca pode ser desejável e também ser questionada. Que uma roupa pode expressar identidade e, simultaneamente, carregar uma rede de relações humanas.

O que acontece quando mudamos o ponto de vista?

Talvez essa seja a pergunta que mais me interessa. Porque, no fim, treinar o olhar não significa encontrar uma única resposta. Significa perceber que sempre existe mais de uma camada. A pessoa é maior do que sua aparência. A marca é maior do que sua identidade visual. O produto é maior do que sua função. A roupa é maior do que aquilo que veste. E uma cadeia produtiva é maior do que aquilo que conseguimos enxergar quando o produto finalmente chega até nós.

Toda imagem possui um enquadramento. E todo enquadramento possui um fora de campo. Talvez olhar com mais atenção seja justamente aprender a perceber essa fronteira, e ter curiosidade suficiente para perguntar o que existe além dela.

"Porque, muitas vezes, é justamente ali, fora do enquadramento, que estão as pessoas, os conhecimentos, os processos e as histórias que tornam possível aquilo que finalmente conseguimos ver. Ampliar o olhar talvez seja, antes de tudo, uma forma de ampliar a nossa compreensão sobre o mundo."

Palavras-chave
PercepçãoComportamentoRastreabilidade
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