Uma das minhas primeiras lições de culinária foi dada por minha mãe, me ensinando como fritar um ovo. Como se tratava do ovo original, primeiro ele era lavado com água fria, antes de quebrar a casca na quina da frigideira.
As instruções à beira do fogão exigiam uma atenção máxima. Havia ali um perigo iminente, onde qualquer distração — os riscos infantis da curiosidade, da investigação e da ação premeditada — é muito provável na estatística da geração de danos.
Não se põe o ovo para fritar em óleo frio. Desde a primeira à última, até hoje continuo em busca de aulas práticas com tamanha precisão de conhecimento, causa e efeito. O tempo necessário de espera pela consistência da fritura antes do ovo ser virado fazia parte de um cálculo entre tempo e qualidade. Para obter a gema pouco endurecida e o contorno da clara crocante, o tipo de espumadeira usada era fundamental para o desempenho.
A educação em família é um experimento contínuo entre afetos e vivências sob o ponto de vista da convivência. Toda a economia do mundo influencia no comportamento familiar, do mesmo modo que a economia local é o vetor de alcance imediato, momento em que se faz necessária uma virada de ovo com muita precisão técnica para que a mudança seja eficaz. Ainda que a tecnologia tenha virtualizado a economia, o próprio desenvolvimento do e-commerce ou dos aplicativos de mobilidade urbana gerou as inúmeras pontes nos territórios, estabelecendo métricas de governança por vezes assimétricas e ainda não suficientemente precisas na LGPD quanto à classificação de áreas como de risco, por exemplo, sem um letramento junto à sociedade sobre o que significa "risco", de modo que a família residente não continue a ser estigmatizada institucional e corporativamente em razão do local onde vive.
Chamo atenção ao risco porque desde a infância ele significa muitas coisas. A gramática da língua luso-brasileira tem essa competência definitiva de gerar familiaridades nas funções, permitindo que se comporte a ampla diversidade cultural das nossas expressões. Como diz C. Drummond, "O mundo é grande e pequeno."
O risco do desenho, do molde, do vidro, da madeira, do fogo, da água, do vento, do planeta. Todos eles dizem respeito a mim e acredito que façam parte do conjunto de decisões que tomamos nos negócios familiares. Ainda que saibamos dos outros riscos, eles não podem definir pessoas por geolocalizações sem estratégias de mitigação de danos, pois corre-se o risco de arrebentar a gema ainda mole ou despedaçar a clara. Seja em razão do núcleo ou da circunferência, o conhecimento sobre a experiência familiar é essencial para o desenvolvimento de uma técnica de virada bem-sucedida.
Importa informar que a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD — Lei n° 13.709/2018) estabelece princípios e direitos que ganham especial relevância quando dados pessoais são utilizados para produzir decisões que afetam pessoas. Entre eles estão a finalidade, a adequação, a necessidade, a transparência e a não discriminação, previstos no Artigo 6°, além da possibilidade de solicitação de revisão de decisões tomadas unicamente com base em tratamento automatizado de dados pessoais que afetem os interesses do titular, conforme o Artigo 20.
Por isso, quando uma plataforma utiliza dados de localização para restringir ou negar determinado serviço, a questão não deveria ser reduzida à existência da geolocalização. É necessário compreender para que o dado é utilizado, quais critérios orientam a decisão, quais efeitos ela produz sobre as pessoas e se existem mecanismos capazes de permitir sua compreensão, contestação e revisão. Quando essas decisões produzem barreiras territorialmente concentradas ou efeitos potencialmente discriminatórios, abre-se uma questão de governança que precisa ser examinada à luz do contexto concreto.
Ilustro com a Lei porque o risco da estigmatização pode produzir um dano que se perpetua para além da decisão original, transformando uma classificação territorial em uma barreira invisível ao desenvolvimento econômico e social, inclusive quando essa classificação passa a influenciar a percepção institucional e corporativa sobre as pessoas que vivem naquele território. Não é a existência do óleo que determina o dano. É a combinação entre temperatura, tempo, instrumento, movimento e momento da virada. Da mesma maneira, não é a existência da geolocalização que determina a discriminação. É preciso compreender como ela entra na decisão, com qual finalidade, sob quais critérios e com quais efeitos. Virar o ovo não é simplesmente mudar sua posição. É também intervir no processo sem perder aquilo que ainda está em formação. Cenários em que há escassez e excesso de precariedade não deveriam ser analisados sistemicamente sem mediação humana frequente. O tempo exato de virada é um termômetro que requer sensibilidade e delicadeza. Por mais que tenhamos evoluído nas tecnologias de ausência de óleo e, culturalmente, em não consumir ovos por questões de saúde ou de politização, as experiências vividas precisam de um lugar para serem acolhidas, além das novas cognições, as atribuições de uma nova consciência. Esse atropelamento das ações, sobretudo tecnológicas, pode produzir danos quando transforma pessoas, experiências e territórios em índices e métricas não regenerativas.
Ao participar das trilhas de formação do Desafio Regenera Rio 2026 — realizado pelo Parque de Inovação da PUC-Rio, Donut Brasil, Yunus Negócios Sociais América Latina, Regenera Cultura e Alumni PUC-Rio —, o que primeiro me saltou aos olhos foi o cuidado e a delicadeza com que a equipe das trilhas compartilhou o conteúdo. Essa talvez seja uma das respostas mais potentes para gerar transformações reais em núcleos familiares e nas comunidades, associações e instituições afetadas pelas mais severas violências socioeconômicas. Se as causas e os efeitos dessas violências são transparentes — o nível "óbvio" do problema —, a delicadeza da abordagem opera em outra dimensão. É o que Roland Barthes chamaria de sentido obtuso: um excedente de significação, uma camada poética que escapa à frieza dos diagnósticos tradicionais. Essa delicadeza aciona o mesmo movimento contido no verso econômico "gentileza gera gentileza". Afinal, cuidar do que é sutil me parece muito mais duradouro do que apostar em atos cirúrgicos imediatos, onde a pressa por relatórios e números acaba por invisibilizar o indivíduo como o verdadeiro vetor cocriativo de mudança da sua própria realidade.
Este texto tem um recorte específico: ao ser desafiado a pensar em um projeto regenerativo para o Rio de Janeiro, a primeira referência cultural que me alcançou foi "carioca da gema". Talvez por isso a razão da infância tenha surgido com a força do afeto, da inclusão, do pertencimento territorial, da educação técnica e familiar. A partir dela, como propor uma Teoria da Mudança em um núcleo familiar, que gere desenvolvimento do trabalho e renda, usando de tecnologia, em uma parte da sociedade estigmatizada pelo risco?
Descobrimos que sem percorrer o risco em trilhas, acabamos por considerar as realidades tão abstratas quanto os riscos que definem os territórios dos mapas, seja da forma sistêmica ou não. A diferença reside na possibilidade de o núcleo ter condições de operar uma ação e como podemos gerar ferramentas que possam regenerar situações humanas sob processos de exclusão. A técnica do ovo representa também o cuidado como quebramos a casca. A questão é que, quando se trata de humanos, a casca não é original, é imposta pelo sistema. E talvez a solução esteja em como reprogramá-lo para que seja uma capa de proteção.
Pensei talvez em propor que os membros de cada família desenhem um ovo. Em seguida, que respondam a uma pergunta: Como você frita um ovo? Talvez aí surja a possibilidade de introduzir o assunto, de observar as técnicas das respostas e, a partir delas, cocriar soluções sobre como as evoluções tecnológicas podem gerar processos regenerativos. Isso não trata de uma metodologia a partir do ovo, mas de uma introdução de um objeto familiar da alimentação exemplificado como técnica de abordagem e desenvolvimento que nos permita descobrir como cada família sabe fazer uma coisa aparentemente simples — e o que acontece quando esse conhecimento é reconhecido como válido para pensar uma transformação maior. A pergunta "Como você frita um ovo?" carrega a intenção de regenerar uma premissa usual: pressupõe que existe conhecimento onde normalmente procuramos apenas carência.
Ao pesquisar sobre a origem da palavra "carioca", descobrimos uma ironia fantástica. Uma das interpretações mais conhecidas para a origem de 'carioca' relaciona o termo ao tupi kari'oka, frequentemente traduzido como 'casa do homem branco', às margens do Rio Carioca (o rio físico que abastecia a cidade e que hoje foi escondido, canalizado e transformado em subsolo pela engenharia urbana).
"Na atual gramática das periferias do Rio, a expressão "carioca da gema" ganhou um termo paralelo: o "Cria". Neste ensaio, tomo o "Cria" como a gema que reconhece a sua própria casca. É aquele que foi gerado, moldado e educado pelas calçadas, pelos becos e pelas redes de afeto locais. Quando o jovem da periferia diz que é "cria", ele está afirmando que possui o conhecimento prático daquele chão — a precisão técnica de quem sabe onde o óleo ferve e onde o risco corporativo impõe critérios e estruturas capazes de invisibilizar sua própria história. O "cria" é a gema que se recusa a virar éter tecnológico. Ela é percebida aqui como o saber regenerativo que habita o núcleo de cada comunidade."
Para constituir valor é necessário entender o que representa esse saber regenerativo. Se há nele um potencial intrínseco de transformação e quais dispositivos são necessários à sua ativação, tendo o cuidado e a delicadeza como premissas de uma possível metodologia. "Como você frita o ovo?" é uma alavanca de introdução ao conhecimento das diferenças e igualdades, sem equivalências, mas como possibilidades de descobertas sobre quais são os melhores caminhos ou estratégias para que a gema, a clara e a casca pertençam ao mesmo fundamento de verificação de identidades.
A necessidade de evidências de uma transformação genuína em potencial econômico encontra uma pergunta que provocou meu modo de pensar ou de regenerar os argumentos da minha própria história e a de muitas outras, talvez. E a forma encontrada de prosseguir para as respostas que possam realmente gerar impacto social é a de passar adiante aquilo que se pretende cocriar: Como você frita o ovo ou como deixou de fritar?