Novo ArtigoFolclore & Economia

HISTÓRIAS DA CAROCHINHA

A fabulação econômica, os mitos do presente e a metamorfose do João.

O mito do João

Quem quer casar com a Dona Baratinha não precisa ser um João Ratão. Tampouco os contos da Carochinha devem ser tratados como ilusões. Parece que a fantasia subverteu os padrões. Quem tem fita no cabelo está em todas as janelas, e o João vai desde o pé de feijão ao irmão da Maria, ao Grilo da misericórdia, às anedotas dos botequins.

O que encantou crianças e adultos criou uma fabulação econômica difícil de ultrapassar, e a ingenuidade moral se constituiu como uma engenharia conservadora. É desde os tempos de menino que a Carochinha me assombra: uma velha cascuda escondida na escuridão do quarto, saída do guarda-roupa para habitar os sonhos.

Há perguntas não respondidas acumuladas nas práticas. Lembro-me de algumas delas: por que Rapunzel, a Bela Adormecida ou a Gata Borralheira foram obrigadas a passar por isolamento, anestesia e métricas estéticas? A exclusão de quem não tem o pé direito para caber em um molde, de quem é anulado no tempo por cem anos ou de quem precisa usar da extração de si para escapar da prisão impôs uma fragilidade no universo feminino que contrapunha minha visão de menino da força que as mulheres da minha família tinham.

Quem quis casar com a Dona Baratinha foi um João. Talvez tenha sido a melhor escolha de nome de personagem para ocupar um lugar tão simbólico. Na instância da fantasia, os Joãos passaram por mim com histórias reais: João de Deus, João Bobo, João das Couves, João do Pulo, João Grandão. Não trato aqui de uma ordem cronológica, mas de uma formulação em torno de um nome que representa milhares de anos de construção e que me inspira a possibilidade de reprogramar os mitos antigos para ler as feridas do presente. Não me interessa descobrir quem é o verdadeiro João. Interessa-me observar o que o nome permite que cada época faça com ele.

Metamorfoses

É nesse primeiro João, convocado para ocupar a janela da Carochinha, que a ambiguidade começa: ele pode ser aquele que procura o tesouro ou aquele que deseja guardá-lo. O João que subiu até as nuvens para alcançar um tesouro é o mesmo que hoje escala algoritmos.

E, quando o João entra na casa da Dona Baratinha, ele ganha sobrenome. É aí que surge o Ratão. Aquele que era Ratão, de moral gananciosa, bem que podia ser um rei de Portugal. Não são os filólogos que dizem ser o folclore a forma que o povo tem de lidar com as questões? Quem melhor seria para representar o interesse sobre a moeda de ouro guardada na caixinha da crescente burguesia? Mas isso também não faz do nome um ícone da aristocracia, quando apenas revela a visão comum de quem se traveste de simples para absorver a cultura popular. E, no caso, o feijão continua sendo o meio para depurar intenções.

Mas o João não permanece Ratão. O que muda, portanto, não é apenas a história. Muda a função atribuída ao nome. O mesmo nome que pode representar a apropriação também aparece em outro corpo: aquele que cai e volta. Não me surpreende que o João-Teimoso tenha transmutado o João-Bobo. Ao pesquisar as origens, descobri a capacidade resiliente de um monge budista cuja figura inspirou o Daruma, um brinquedo japonês que demonstra a capacidade de resiliência e perseverança. E o que é negado nesse código é justamente o fato de ele não reagir com violência, enquanto a física demonstra que o peso da base pode ser usado para levantar o que é deitado à força.

Ao converter a agressão externa em energia de retorno, o “bobo” do João cria uma das performances mais visíveis dos movimentos sociais em sua capacidade regenerativa, enquanto discute a dialética entre o cair e levantar-se, ou deitar e ser derrubado. Talvez fosse mais coerente que o príncipe da Bela Adormecida também se chamasse João.

Só que João não conhece fronteiras, e a mesma história que cai e se levanta também muda de língua. Outra inflexão alcança minhas memórias. Quando o João é rebatizado em Jack, o João que se afoga no feijão em Portugal é o mesmo Jack das cantigas tradicionais que, em uma das interpretações de sua origem, racha a cabeça na colina inglesa por causa das assimetrias fiscais e logísticas de um rei ganancioso. E novamente, seja em Jack & Jill ou em João e Maria, a fábula esconde o trabalhador em busca de sua subsistência, operando no limite da precariedade.

"O João, então, não é mais apenas um personagem. É um lugar de passagem. Pode ser o que procura, o que acumula, o que cai, o que retorna, o que atravessa línguas. Seu nome permanece enquanto seu corpo, sua função e sua história mudam."
O Construtor

Do Ratão ao Bobo, do João ao Jack, o nome atravessa personagens diferentes, mas preserva uma mesma pergunta: quem trabalha, quem extrai e quem fica com o tesouro? Se os comportamentos econômicos antigos e atuais são moldados por essas narrativas de extração, a regeneração só poderá acontecer quando nós hackearmos as narrativas na raiz.

É justamente nesse ponto que aparece um João que escapa da lógica da extração. O João que me interessa agora não sobe para buscar o tesouro, nem cai para voltar a se levantar: ele constrói. Justamente o que escapa da cultura ibérica e da folclorização carocha brasileira é o João-de-barro. Esse passarinho constrói sua casa com grãos de terra e outros insumos da natureza. Não procura uma riqueza escondida, não precisa subir até as nuvens para encontrá-la e tampouco depende de cair para provar que consegue voltar. Seu tesouro é construído.

É nele que se instala a beleza mais genuína do João, nascida de um ecossistema, com função legítima, atividade orgânica e uma economia de sentidos. O João-de-barro não extrai o abrigo do mundo: constrói um lugar para existir dentro dele. Curiosamente, o passarinho traz a resposta que falta ao João-Sem-Terra, do tempo das cruzadas inglesas, criando um contraponto entre a ganância e a sustentabilidade.

Esse João construtor também modifica o lugar da janela. Este João representa um equilíbrio ante a força das carochinhas. Quando sua companheira chega à janela, é para observar o mundo e não para prometer que há dinheiro na caixinha, porque o tesouro guardado é vida preservada. A janela começa a mudar de função. Já não é apenas o lugar onde se anuncia o tesouro. Pode ser o lugar de onde se observa o que foi construído.

As Donas Baratinhas estão precisando urgentemente revisitar suas histórias, sobretudo porque o João Ratão contemporem não ambiciona o chouriço no feijão, mas a plantação inteira, as nuvens e a exclusão. E é justamente quando o João deixa de ser personagem e passa a ser produto que a transformação do nome revela outra camada da mesma história. Seria prematuro finalizar este ensaio sem falar da transcodificação de João em John. Até aqui, o nome atravessou personagens e línguas. Quando chega à imagem, porém, ele encontra outra economia: a da visibilidade.

A Imagem Comercial

Ao seguirmos pela trilha da imagem, o impacto é global. O João atravessa outra fronteira: deixa de ser apenas personagem para tornar-se nome de imagem, e a imagem passa a ser uma forma de circulação econômica. Os “Johns” mais icônicos da história recente da mídia dividem-se entre os que usaram a sua imagem para rachar o sistema e os que foram transformados pelo mercado em pura mercadoria visual na janela da tela.

Entre os Johns mais imagéticos da história da mídia está o ex-Beatle. Ele operou a transição exata do “John na esteira da indústria de massa” para o ativista que subverteu o uso da própria imagem. O impacto de um par de óculos redondos, o cabelo comprido na cama pelo protesto da paz (Bed-In) e o terno branco de Imagine tornaram-se ícones universais. Lennon usou o alcance espetacular das mídias para fazer o diagnóstico das violências e da ganância de reis e governantes. Ao fazer a sua ciranda política e amorosa com Yoko Ono diante dos fotógrafos, ele hackeou as narrativas de extração na raiz, provando que o artista não precisava ser o João passivo da gravadora. A sua imagem era uma barreira indestrutível — até ser silenciada pelo asfalto de Nova York.

O cinema de Hollywood construiu avatares potentes com esse nome para moldar o comportamento e o consumo do Ocidente. Uma pesquisa rápida de dados identifica velozmente os conceitos das narrativas cinematográficas do João/John: John Wayne, John Travolta e John Wick. Entre os “Johns” da Moda, duas ou três referências são suficientes para consolidar a escala do John. John Galliano: um dos estilistas mais teatrais, geniais e controversos da alta costura, Dior e Givenchy. John Kennedy (JFK): o político-celebridade inaugural de uma era.

Mas há um John em que o nome deixa de ser apenas identidade e passa a funcionar como estratégia de mercado. A John John é um dos casos mais emblemáticos de fabulação e maquiagem estritamente mercadológica do varejo de moda nacional. Desenhada sob medida para simular uma identidade internacional — com campanhas em Los Angeles, slogans em inglês, como “Jeans made in heaven”, e astros de Hollywood de fachada, como Zac Efron —, a grife é, na verdade, 100% brasileira.

A trajetória da marca ilustra com precisão cirúrgica a mecânica do mercado corporativo, dividindo-se entre a técnica do chão e a abstração das finanças. Fruto do trabalho de João Foltran, um estilista de Tietê, interior de São Paulo. Conta-se que começou na adolescência limpando o chão e cortando tecidos em pequenas confecções. A marca nasceu quando J. Foltran identificou um vácuo no mercado de denim premium e desenvolveu lavagens artesanais, tratamentos químicos e rasgos manuais sofisticados, prestando consultoria de jeans para grandes etiquetas, como Daslu e Animale, antes de fundar sua própria marca.

A grande ironia reside na circulação do nome: o apelido de João, convertido em John John, passou a operar como identidade de uma marca inserida no mercado premium de moda. O “Cria” do interior paulista precisou travestir a si mesmo e ao seu produto com uma máscara anglo-saxônica para que o mercado de luxo aceitasse validar o valor do seu trabalho manual? Ou foi apenas um apelido entre amigos que foi absorvido pela cultura econômica do nome?

Aqui, a metamorfose chega ao seu limite: o João que antes mudava de nome dentro das histórias passa a mudar de nome para entrar no mercado. O personagem transforma-se em identidade, a identidade em imagem e a imagem em mercadoria. A transcodificação deixa de ser folclórica e se torna econômica. O que antes era metamorfose de personagem agora é operação de mercado. Essa permanência ajuda a revelar a potência das Histórias da Carochinha como força motriz das mentiras usuais aplicadas nas janelas das mídias sociais.

A metáfora do João permanece sem regeneração, uma vez que a economia insiste em manter a D. Baratinha na janela, mesmo sabendo que ninguém mais quer casar com ela, já que é possível acessar a caixa de moedas com apenas um toque digital. A janela mudou novamente. Antes era o lugar da espera, depois o lugar da imagem e agora é a tela. Mas a lógica da caixinha permanece.

Meu pensamento insiste no quanto a ressignificação de sentidos folclóricos pode regenerar comportamentos econômicos, enquanto o Vale do Silício resiste na programação tradicional dos avatares de Baratinhas e Ratões. Talvez seja necessário, então, que o João deixe de ser apenas uma figura econômica para voltar a ser uma figura de relação. Penso ainda que a melhor forma de resgatar os sentidos das histórias é submetê-los ao crivo do amor, onde o filtro da linha é carregado de evidências de sentimentos, capazes de produzir melhores fabulações sobre encontros e desencontros, realidades e abstrações, do concreto às nuvens.

"Sentimos falta do João-ninguém."

Esse massacrado pelo estigma da escassez talvez seja capaz de estabelecer novas significações, livre de carregar o peso que seu nome tem. Há nele a possibilidade do outro, que aproxima o intrínseco do sujeito. Depois de tantos Joãos transformados em função, imagem, valor e mercadoria, aparece a possibilidade de um João que não precisa representar nada sozinho. É por onde a cultura adensa seu modo de ser.

Seu movimento desqualificado é uma vantagem frente à máquina da qualificação. Seria o gauche contemporâneo, para dar à França o direito de contribuição nos contos do João. João-ninguém, por conter vários ninguém e inumeráveis Joãos, inverte a lógica do sistema como possibilidade transformadora. Sua diversidade ultrapassa a excelência individual e mitiga seu risco de ser excluído do coletivo. Viajante, atleta, escritor, ambulante, músico, líder, sonhador, trabalhador, canônico...

Não é a excelência de um João que o define. É a possibilidade de conter muitos. A sua coletividade simbólica e energia compartilhada geram uma entidade formada pela reunião de pensamentos ou pessoas. O João-ninguém não precisa conquistar um lugar excepcional para existir. Seu lugar pode estar justamente naquilo que o sistema não consegue transformar em uma única identidade.

É mister da natureza gerar tanto pares quanto ímpares. Aproximar os dois “Joãos” é reuni-los sobre a egrégora de Joãos nas mais variadas línguas, que traria um volume cultural expressivo da literatura à música, mas também resgataria um peso que o momento do João-de-barro não precisa carregar.

O João-de-barro constrói sem precisar ser exceção. O João-ninguém reúne sem precisar ser indivíduo. Talvez seja nessa aproximação que o João encontre uma forma de existir sem voltar a ser apenas personagem da velha economia. Façamos deles uma união simples: João-de-barro e João-ninguém. Um constrói o lugar. O outro impede que esse lugar pertença a um único nome.

Prefiro, então, continuar essa tese com uma parte emprestada do poema “A Quadrilha”, de Carlos Drummond:

“João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.”

Palavras-chave
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SEBASTIÃO RAPHAEL

Setembro de 2026