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QUEM TEM MEDO DO LOBO-BAU?

Uma reflexão sobre a cultura do "Business as Usual", a sustentabilidade corporativa e as fábulas da nossa infância.

Tecido escuro e textura que remete à elegância corporativa e à pelagem do lobo

Desde criança, nunca me intimidei com os lobos das histórias. Menino do interior, despertei minha curiosidade sobre lobos lendo as fábulas, assistindo a série de tv O Mundo Animal ou ouvindo as lendas narradas pela minha avó sobre lobisomem em volta do fogão de barro e lenha, enquanto ela preparava a papa de milho. Na verdade, uma das minhas frustrações foi ganhar de Natal bichinhos de plástico coloridos que reuniam leões, elefantes, zebras, focas... tão distantes da minha cultura de vacas, cabritos, galinhas, cavalos e porcos... exceto o lobo.

Na minha primeira infância, o lobo cresceu como figura mágica e mítica, e o senso moral e ético da fábula Os Três Porquinhos gerou questões genuínas a respeito de como defendê-lo de tantas acusações. Para uma criança, convenhamos, não há uma idealização de mal construída. Então, por que o lobo tinha que ser mau? Se ele não possuía o veneno da cobra que o padre havia dito tantas vezes no altar, se ele apenas comia a ovelha ou o coelho para sobreviver como qualquer outro bicho caçador, ou como meu pai e meu avô faziam com os porcos da fazenda, por que ele teria que ser o bicho ruim de toda história?

Certa vez, alguém me disse que era para a criança aprender sobre o medo, ter limites, não abrir a porta de sua casa para estranhos. De outra, um autor escreveu sobre a psicologia dos contos de fadas, onde o símbolo e o simbólico são ferramentas da formação. Mas as perguntas da infância permaneceram inquietas, e dentre elas, há uma que se manteve:

De onde vinha a força do sopro do lobo capaz de assustar e derrubar as construções?

Onde a Física, a História e a Literatura reuniram forças, a Economia subtraiu competências. Para responder a essa pergunta pesquisei as origens. E as descobertas foram tão fantásticas quanto verossímeis. Desde a narrativa oral na Europa Ocidental, há séculos, quando o lobo era uma raposa e os porquinhos eram pixieis até a pseudo subtração da violência pelos estúdios Disney em 1933, a fábula dos porquinhos consolidou a narrativa do pop ao pop. A moral tripartida embutida nela ensinou a gerações: o valor do trabalho duro e da paciência, a prevenção da previsão e do planejamento e a inteligência prática sobre a força bruta. Mas a única coisa que ela não apontou foi o que o lobo nos ensinou.

Na minha infância, a palha do milho virava roupas e acessórios para bonecos; o carvão, desenhos sobre papel e concreto; e a sobra da argila, além das horas brincando no rio, artefatos e esculturas. Jamais pensei que o lobo um dia viria derrubar essas estruturas.

O que pude observar na fábula foi o lobo tentando se alimentar. Isso não é ganância. E cá entre nós, um porco construir uma casa de palha foi de uma ingenuidade pueril. Ainda que a falta de recursos materiais sobrevenha a um imediatismo da escassez, não fosse o vento, o fogo ou a água cumpririam o mesmo papel. Quanto à casa de madeira, tenho algumas ressalvas. Talvez tenha faltado projeto, engenhosidade, percepção. Reconheço o trabalho de arquiteturas contemporâneas que se utilizam de tecnologias capazes de resistir aos três elementos. Mas diante de um tufão, seriam levadas ao vento do mesmo modo. De onde podemos inferir que a potência do sopro do lobo aumentou; uma quase resiliência evolutiva mediante a fome.

Já o tijolo é outra história. Há uma solidez pungente, uma ideia estrutural, uma longevidade astuciosa. Há muito que qualquer ser vivo reconhece os significados de uma pedra no caminho. Do tempo das cavernas às pirâmides egípcias, das colunas gregas aos castelos medievais, das esculturas às edificações de qualquer rua, como Wall Street, a solidez sempre foi um contraponto ao efêmero; e até um porco sabe disso.

Eu sei. Marshall Berman diria que "tudo o que é sólido se desmancha no ar". Talvez tenha faltado ao lobo a paciência do tempo necessário para que os efeitos climáticos ou a Filosofia de Walter Benjamin lhe fizessem os argumentos necessários ao sopro, derrubando assim a reprodutibilidade técnica e a terceira moral da história.

Em honra à minha infância não posso deixar de lembrar que os bichinhos de plástico que meus pais me deram também me trouxeram muitas fantasias. E a papa de milho da minha avó até hoje permanece sagrada em meu paladar. O que é profano, preciso dizer, é o mal do lobo ainda ser um costume. Que os ingleses tenham construído o Big Ben ou os americanos o Empire State acho pertinente, coerente e admirável. A natureza também exerce a sua luta gravitacional. E a Economia sempre encontra meios para seu ambiente. Usar da astúcia da raposa ou a fantasia dos pixieis contra a inapetência dos porquinhos ignorantes é uma estratégia epistemológica considerável. Discordo apenas da culpabilização do lobo e de seu sopro, que para mim estão fusionados na história moderna, como corpo e aura.

O erro da economia moderna foi industrializar a palha, a madeira e o tijolo sob a lógica do esgotamento, esquecendo a sabedoria da beira do rio. O mercado financeiro insistiu em aplaudir a eficiência barata das casas de palha corporativa (o greenwashing) e das casas de madeira (a ecoeficiência paliativa que apenas desacelera o dano), enquanto ignorava que o sopro do mundo real estava se tornando um furacão.

A força do sopro do lobo, portanto, nunca pertenceu de fato aos seus pulmões. O fôlego avassalador que assustava o folclore britânico e desabava os vilarejos de palha e madeira vinha, na verdade, da fragilidade das próprias construções. O sopro era a física elementar do teste da realidade: a lufada de ar que encontra o vácuo da inconsistência, o atalho da pressa e a ausência de fundação profunda. O lobo não inventava a fraqueza da casa; ele apenas a expunha ao mundo.

Nós, os porquinhos modernos do ambiente corporativo e financeiro, passamos séculos erguendo edifícios inteiros feitos de palha e maquiagem. Batizamos esse modelo de Business as Usual (BAU).

Criamos uma cultura escravizada pelo lucro trimestral, pela extração imediatista e pela ilusão de que os recursos da Terra se regeneram na velocidade de um relatório de bônus. Diante disso, geramos o nosso próprio predador sistêmico: o Lobo-BAU.

Ao transbordar a fábula para as nossas estruturas contemporâneas, percebe-se onde a Economia subtraiu as competências da nossa sobrevivência.

O Lobo-BAU não opera por maldade ou perversidade premeditada, exatamente como o bicho caçador que a sensibilidade da minha infância no interior insistia em defender. Ele é apenas a resposta inevitável e integrada às leis do ecossistema que nós mesmos desestabilizamos. A força devastadora do seu sopro atual — que se manifesta na violência climática, no esgotamento dos solos, na inflação ecológica e nas rupturas sociais — não é uma força bruta externa. É o vácuo acumulado por décadas de omissão e externalização de custos reais acumulados do lado de fora da nossa porta.

O sopro do Lobo-BAU ficou forte demais porque as nossas estruturas são finas demais. Para resistir à lufada de realidade que bate à porta, o mercado precisa, urgentemente, parar de fugir do predador que ele mesmo alimenta e começar a projetar suas fundações, garantindo a dignidade do piso social sem jamais estourar o teto ecológico do planeta. A maturidade econômica que nos falta é aceitar que o lobo nunca foi o bicho ruim; ruim é a nossa teimosia em continuar construindo para o colapso.

Há outra lembrança do quintal da minha infância que eu esqueci de dizer. Lá pelas cinco da tarde, quando a brasa ainda punha cor nos pedaços de carvão tão desejados, minha avó reabastecia com galhos novos o fogareiro para iniciar o preparo do jantar. E justamente quando o céu marinho cobria o gosto do dia, da mexida que ela dava nas brasas faiscavam estrelas nos olhos da gente.

Quando se tem um teto ecológico, não acima, mas diante de nós, o sopro do lobo respira para dentro do fogo e ninguém pergunta se é bom ou mau, se é bem ou mal. É não à toa que o elemento de imagem mais importante da tecnologia contemporânea foi nomeado por um engenheiro espacial: o pixel. É quando penso que minha avó estava certa em faiscar a brasa e o mundo errado em substituir as fadas pixieis por lobos. O Lobo-BAU que sopra agora tem uma potência planetária, mas continua fazendo com que nos confundamos nos caminhos. O mesmo ar que leva gigas de ondas de um polo a outro, destrói as ondas dos mares que nos sustentam. O mais curioso é que a parede de tijolo continua sendo um obstáculo, e talvez esse seja o ponto mais cego da atualidade econômica que insiste no business as usual.

Há um cansaço nisso. Não se trata mais de alcançar o porco por detrás da parede para saciar a fome, uma vez que o tijolo não é mais percebido ou virou éter diante dos olhos. O sopro do lobo insiste em não reconhecer que toda transformação necessita de limites materiais para não se converter simplesmente em atravessamento, extração e dissipação.

O Lobo-BAU se autoesgota enquanto esgota os recursos de sua natureza. Seu regozijo por ter contornado, escalado, removido, consumido ou destruído a pedra é um esforço desesperado por não saber mais reconhecer a função dialética dela.

Porque uma pedra não é apenas aquilo que impede o caminho. Ela também pode ser aquilo que faz o caminho existir. Sem ela, o sopro atravessa. Diante dela, algo precisa mudar.

Palavras-chave
SustentabilidadeEconomiaBusiness as UsualESGCultura Corporativa
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SEBASTIÃO RAPHAEL

Setembro de 2026