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ALICE NO PAÍS DAS ARMADILHAS

Uma reflexão poética sobre o corpo, o código e a perda do livre-arbítrio na engrenagem contemporânea.

Alice no País das Armadilhas

Nota do Autor

Neste ensaio literário, a estrutura clássica de Lewis Carroll se choca com a crueza do asfalto urbano e a opacidade dos sistemas digitais. Conceitos de computação gráfica e modelagem tridimensional — como o Gimbal Lock (o travamento físico de eixos que anula a liberdade de rotação) e os Quatérnios (a matemática abstrata usada pelos algoritmos para evitar esse colapso) — emergem aqui como metáforas para o aprisionamento da subjetividade nas telas. Uma reflexão poética sobre o corpo, o código e a perda do livre-arbítrio na engrenagem contemporânea.

Estou farto do riso concedido. Daquele que o dente é parente do inibido ou o pente é instrumento de patente. Daquele que a sobrancelha e a boca assemelha ou o som é refém da orelha. Estou firme com bandeira porque pó sem ética é face corriqueira, estética da sujeira. E brilho sem trilho ofende a rota inteira.

Estou derme atológica atolada na lógica. Transpiro o que firo sem respiro. Emplastro meu rosto com rastro oposto e chego nas caras sem sujeito. Sou tão rímel quanto inverossímil. Fixo sufixos por desespero. Rimo o que imprimo e não estimo. Desafeto o que afirmo.

Meu rosto é tão oposto quanto gosto. Creio no que saboreio sem recheio, devoto o pote pelo meio. Mantenho o pacto intacto da laca que virou freio. Inverto o belo no elo feio. Sob a goma do fácil intrigo o tátil. Meu rubor é calor sem esteio. Desce dos cílios os empecilhos. Cada vez que o pelo cobre o rio minto o frio. Da curva extinta dos lábios caem sábios. E verdade e vaidade são atestados em rusgas musgas abaixo das raizes, onde acabam pelos e cabelos.

As narinas alteiam colinas buscando relevo no que relevo. O ar esgrima. É corte e morte em toda sina. Entre osso e fosso há um colosso que sustenta a cátedra da pálpebra e da retina. É nasal toda palavra que anima. Fonema sem tema é sistema, não rima.

Ontem fui de menina. Desci a rua sem estima. A lua míngua desde a língua. O arco da íris deslocado mirava torto o prédio morto. Da alça à calça era toda fina. Enquanto a calçada mina a ingênua melatonina. Bochecha o rosa com a parafina e para o lépido da esquina, e para o plégico da janela, e para o foco que vela. O silêncio duro do concreto pôs espelho no decreto: quem nina termina no fim do afeto. No instante do percurso o curso foi de urso. Fada sem nada. Dada desnudada. Saída rasgada.

Ninguém via o que cria. O canto sem encanto brilhando cor vadia. A palavra lavra o que espia. Quase nó saía da via. Era sangue que tremia. Era o verbo que doía. Suor que subia, descia, engolia. Dedo sem credo sem medo. Prefácio tardio e prólogo cedo. Não a via ninguém na via. Não havia ninguém no havia.

Na nuca a luta bruta entre o braço e o abraço. Paga o apago o vago imundo do mesmo jeito que o sujo do sujeito. Predicado e pecado sintéticos no asfalto do assalto. A função no nojo que é o despojo do desejo. Não há ente sem mente e ainda assim há semente. Ela se mente. Não é mais corpo ou gente. É notícia vitalícia da polícia. Mídia imprudente.

Da força esguia manga a guia da rua nua. O rito e o grito são lacunas do mito. Nenhum passo atrás ou à frente traz o eco decente do aviso sem sorriso. A morte sente a vida corrente e despoja corpo e mente no mesmo salto alto inocente. O perfume vira urdume da trama que ama a cadência antes da decadência. O tom do batom avermelha e espelha a cena triste. Da casca do asco brota uma rota perdida e a dor da cor é cingida de espetáculo. O público aproxima o ato, no último fato: violência e permanência se atam.

Hoje, voltei corriqueiro. Como se a brisa e o colapso fossem o mundo inteiro. E a sorte do passageiro fosse vírgula e reticências da decência à demência. O vapor elimina o roto da sina e a roupa resgata o ímpio do princípio. A breve sujeira da sujeita, a água rejeita, a espuma enfeita, o silêncio ajeita. Subo o território do carrasco com o asco no aço, não no abraço. A arma desarma o risco do imperfeito. Nada é aflito no conflito, onde o gesto é o resto. A sobra quem cobra é a obra. Findo indo o subindo. No morro o gorro cobre o fio. O café e a fé misturam o sombrio. Rezo o terço do quarto e a quintessência implica o sexto sentido dos sete palmos, das oitivas vivas, da nona regra, do décimo julgamento.

No palco do talco, a bissetriz vira atriz. Rasga o nexo do complexo e intima a autoestima. É drama ou trama o que a morte ama?

Ali nasceu Alice, no país das armadilhas. Onde há verso o reverso são trilhas. A fissura da inocência é quebrada pela potência. Entra na rede quem tem influência. O coelho antecipa o espelho e reflete as janelas das telas. O chapeleiro repete o ato sem tato enquanto o chá esfria a essência da alegria. As cartas escondem o ontem das flores passadas em branco. Altivez e clareza são altezas que viram grandezas majestas, má gestas. Onde o filtro da inclusão é uma infiltração e a fantasia da linguagem são sorrisos que agem por detrás da imagem: cortem as cabeças! E a lagarta, suprassumo da inteligência, gera os insumos da consciência: quem são os quatérnios? Aqui quem você é não é você.

Lewis Carroll sabia que a rua via. Que o medo de Alice era apatia. Que o mundo se amplia na fantasia. Que o método do éter vicia a própria metodologia. Alice não maravilha enquanto brilha, segue a trilha da armadilha. Reduz e cresce, esgota o ritmo, vai de Alice à anestesia. Na certeza da pureza, o buraco fundo que arrasa o mundo é correnteza. Carroll sabia. Que um padrão recorrente altera a linha. Alice visse o que visse não viveria. Por que não dizer o que os gêmeos Tweedle diriam? O que cansa no círculo é a dança. É no meio do movimento que surge o freio. É trágico e mágico o poder de quem cria.

A primeira armadilha esconde a ilha. O sozinha no quarto remete ao parto. Ali se nasce Alice. Enquanto a tela ilumina o ela a matemática imputa a prática. O oco do foco domina o ritmo do algoritmo. Tweedledee e Tweedledum retumbam. A lógica circular não leva a nenhum lugar. A falsa dualidade espelha a lógica do código que mina a realidade. Ali Alice se alicia.

O incômodo no cômodo é a linguística da linguagem. Durante a dormência da língua, os ísticos agem. "20+20+20+7 no final é vinte e sete" é o que dizem as cartas 2, 5 e 7. E quando a ordem dos produtos não altera o resultado, a desordem dos adultos aliteram os dados. A segunda armadilha desmancha a filha. Alice sem ninguém vai e vem sem. Entra pura na loucura do vazio à procura do zero. A rosa é maravilhosa mas não tem prosa. O gato é uma ilusão de ótica despótica. Riso sem rosto é um falso pressuposto. De que o gesto é resto. E sob uma métrica feérica sobre a face da tecnomagia, ele diz a Alice: sorria.

Mesmo sem ninguém a armadilha sobrevém. Como a terceira margem da imagem, a quântica transoceânica aproxima o que rima. O personagem invisível ultrapassa o risível como um furo no futuro do Gato de Cheshire e no avatar de Alice. O Gimbal Lock assume o tema do sistema. Os Quatérnios atuais transferiram o problema para o lema de Alice: se nada existe, por que insiste? É quando ela afirma e firma o encontro. Enquanto Gimbal prepara o canibal em outro dado, ela lubrifica a pele do fado. Mas Gimbal não é culpado. Ele é dado. Há presentes nos drones, nos satélites muito maiores - e que a sábia lagarta nas nuvens conhece os pormenores, maiores que Alice e para ela, melhores.

É no preto e branco do asfalto que Alice volta ao real. Onde o impulso contém pulso e a janela sorri dela. O animal é igual, o efeito é plural e o medo, virtual. O coelho foge do tempo, as cartas se pintam por dentro, a rainha perde a cabeça, o chapeleiro derrama o chá, a lagarta sai do centro. As peças do tabuleiro migram de picadeiro. E Alice ainda acredita, em um instante derradeiro, que Gimbal Lock é o seu salvador, e que o amor chegou primeiro.

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TecnologiaSociedadeFilosofiaAlgoritmosCultura Digital
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SEBASTIÃO RAPHAEL

Setembro de 2026